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CASTELO RODRIGO, A ALDEIA AUTÊNTICA

29 Março, 2018
CASTELO RODRIGO, A ALDEIA AUTÊNTICA

A muralha compacta, com os seus torreões, no alto de uma colina, marca a paisagem. A povoação é conhecida pela resistência durante a Restauração, mas também pela criatividade de pratos com peixe de rio ou com os borregos que crescem na Marofa.

 

Lado a lado com a serra da Marofa, as velhas muralhas de Castelo Rodrigo, amparadas em grandes torreões semicirculares (cubelos), vigiam as extensas planícies que se estendem do lado português e se perdem na distância, para lá da fronteira espanhola. A história desta povoação começa muito antes do início da nacionalidade, mas é a 7 de julho de 1664, em plena Restauração, que se desenha um facto histórico para Castelo Rodrigo: nesse dia, tropas portuguesas comandadas pelo general Pedro Jacques de Magalhães, vieram em socorro da população local, cercada pelo exército castelhano do Duque de Ossuna. Os portugueses venceram e o confronto ficou conhecido por batalha da Salgadela (o nome do lugar onde aconteceu). Este acontecimento é agora recriado todos os anos em Castelo Rodrigo com a participação de centenas de figurantes trajando roupas da época. E, ao longo de todo o ano, vários atores vestem a pele de figuras históricas como D. Dinis ou D. João I e acompanham os turistas em visitas guiadas ao castelo e à povoação. Entrando na aldeia de Castelo Rodrigo vamos encontrar casas de traça tradicional beirã, construídas em granito, sem reboco, de um só piso, resistentes ao passar do tempo. No interior das casas, durante o inverno, a cozinha servia de sala de estar, com a lareira a fazer o papel da televisão. O castelo tem uma alcáçova no interior, transformada em palácio por Cristóvão de Moura, um nobre natural de Castelo Rodrigo que ficou ligado ao poder filipino – e, por isso, o palácio foi arrasado pela população enfurecida, logo em 1640, e está hoje em ruínas. Fora do castelo, temos a Igreja de Nª Sª de Rocamador (séc. XIII), onde estão guardados verdadeiros tesouros, como uma estátua de São Sebastião (séc. XIV). O pelourinho manuelino e a cisterna medieval (que terá sido também uma sinagoga), são também pontos de visita obrigatória. A próxima paragem é no ‘Páteo do Castelo’, uma simpática casa de chá, ao lado de uma loja de produtos regionais, a ‘Sabores do Castelo’. Ambas pertencem a André Carnet, 78 anos, um francês que vinha passar férias à aldeia e, em 2001, decidiu abrir estes espaços. As amêndoas doces são uma especialidade da casa (e de Castelo Rodrigo) e a sua produção está por conta de Maria Alzira que junta todos os ingredientes numa enorme panela: água a ferver, açúcar, canela e amêndoas inteiras. “Fazemos umas 14 variedades de amêndoas: com chocolate, sésamo, caril, alfazema e outras especiarias”, explica Maria Alzira. Na loja, além das amêndoas (doces ou salgadas), vendem-se outros produtos da terra como figos, compotas, vinhos ou ervas aromáticas. Do outro lado da pequena rua, está a ‘Sabores da Geninha’, onde se vendem os produtos confecionados por Eugénia Torres. Além das amêndoas doces, temos os bolinhos de coco, de figo ou de amêndoa, além das compotas de castanha, abóbora, figo ou figo com vinho do porto. E ainda um produto inovador, mais recente, a manteiga de amêndoa. Os produtos da Geninha saem para lojas em vários pontos do país e para a Bélgica, França e Alemanha. Um dos emblemas maiores da culinária local é o borrego da Marofa, temperado apenas com sal e grelhado nas brasas. Os borregos crescem livres na serra e alimentam-se dos pastos que a terra dá, garantindo-lhes o sabor especial. No ‘Arco Íris’, restaurante de Delfina Matilde, o borrego vem acompanhado de ‘esparregado à pobre’, assim chamado por ser, no passado, a única comida que os pobres podiam ter à mesa: é feito apenas com folhas de nabiça e batatas esmagadas. Noutro restaurante, o ‘Girassol’, em Escalhão, vamos encontrar Maria Emília na cozinha a preparar uma travessa de peixinhos do rio, umas bogas pequenas, apanhadas no rio Águeda. “São temperadas apenas com sal e fritas em azeite e servidas com um vinagrete que leva cebola, alho, louro, erva peixeira (também lhe chamam hortelã da ribeira ou alecrim do rio) e vinagre”, explica, sempre sorridente, Maria Emília, ao mesmo tempo que vai já preparando outro prato, as migas de peixe, onde vai usar uma carpa vigorosa e luzidia. O azeite e o vinho são dois outros produtos gastronómicos do concelho de Figueira de Castelo Rodrigo. A Adega Cooperativa local, fundada em 1958, absorve as uvas vindimadas por mais de 450 produtores da região. António Madeira, presidente da Adega, e Jenny Silva, enóloga, mostram-nos as caves onde guardam os vinhos e a nova sala de provas, inaugurada há seis meses. Entre as referências da Adega contam-se as marcas: “Convento de Aguiar, ‘Conde de Castelo Rodrigo’ e ‘Castelo Rodrigo’, além dos espumantes e de um licoroso. O Pinking é a estrela mais recente da equipa de enologia: “É exclusivamente vinificado a partir da casta branca síria, a casta mais produzida na região”, conta-nos Jenny Silva, orgulhosa do trabalho que revelou esta categoria de vinho, “única no mundo”, uma investigação que começou quando a enóloga era ainda aluna do mestrado na Universidade de Trás os Montes e Alto Douro. O Pinking é um vinho de cor rosa-salmão, com aromas tropicais e que acompanha pratos de peixe, marisco ou carnes brancas. Do vinho para o azeite, vamos ao encontro de Emília Reigado, na localidade de Quintã de Pero Martins. “Fomos comprando olivais velhos, alguns com 2 ou 3 mil anos e agora temos 10 mil hectares próprios, tudo a funcionar em modo biológico e seguindo todas as regras da agricultura sustentada”, conta Emília Reigado. O azeite é comercializado com o nome do marido, Justino Coelho Reigado, e quase todo segue para o estrangeiro. Ainda em novembro, os Reigado venderam mil litros aos ingleses da Sail Boat Project, que foram transportados a partir do vale do Côa num barco à vela do séc.XIX – esta organização dedica-se à navegação à vela, como contributo para um comércio marítimo menos poluente. “Eles queriam mais, mas nós só tínhamos estes mil litros, o resto já estava tudo vendido. Produzimos entre 3 e 5 mil litros por ano”, explica-nos Emília, satisfeita com a visibilidade que esta acção internacional deu aos seus produtos. Além do azeite, o casal Reigado produz também figo, amêndoa, peras desidratadas e azeitona, distribuídos sobretudo em lojas gourmet. Ainda embrionários, são os dois projectos que vamos conhecer: os licores ‘Casa Magano’, de Maria da Graça e José Carlos Magano e as ‘Flores doceMinda’, de Orminda Monteiro. Ambos, desenvolvem a sua atividade a partir da cozinha industrial disponibilizada em instalações da Câmara Municipal de Figueira de Castelo Rodrigo. As flores doces têm a forma de uma cruz barroca de quatro braços. “Levam farinha de trigo, ovos, leite e canela e são feitas em moldes de ferro”, explica Orminda Monteiro, “Depois de aquecido em óleo a ferver, o ferro é embebido na massa e retirado, para a massa fritar”. Depois de soltas, as flores são polvilhadas com açúcar e canela: “Antigamente os pobres comiam filhós e os ricos comiam estas flores doces. Nos casamentos ou em festas importantes, havia sempre as flores”. O casal Magano dedica-se à produção de licores e ginja. Começaram a partir das receitas de um livro antigo e agora estão a lançar a sua empresa. “Usamos frutos próprios e a produção é toda artesanal”, explicam Maria da Graça e José Carlos. O licor de folha de figueira é o mais típico de Figueira de Castelo Rodrigo mas a ‘Casa Magano” já distribui uma vasta lista de licores, entre os quais os de amora silvestre, limão, amêndoa amarga, ameixas e medronho.

 


Informação de viagem

 

Onde comer

Arco-Íris Localizado no centro de Figueira de Castelo Rodrigo, dispõe de salas amplas e confortáveis e a sua cozinha defende muito bem os sabores regionais. 271 313 207, tavernadamatilde.com

Girassol Espaço familiar, na freguesia de Escalhão, tem uma cozinha atenta aos melhores produtos da região, peixe, carne ou doces. 271 346 169

Cantinho Café Fica dentro da própria aldeia, serve petiscos e dispõe de uma esplanada com uma vista magnífica. Mas o ponto forte deste pequeno espaço é a lista com mais de 100 cervejas portuguesas artesanais, entre as quais uma edição local com o rótulo que indica as coordenadas de Castelo Rodrigo. 912 133 492

 

Onde dormir

Casa da Amendoeira Uma antiga casa de aldeia que estava em ruínas e foi recuperada. Tem quatro quartos, todos decorados com temas musicais: fado, flamengo, blues e bossa nova. Duplos a partir de 68€. 969 774 085 casadaamendoeira.pt

Casa da Cisterna Localizada no interior da aldeia histórica, nasceu da fantástica recuperação de uma casa antiga. Dispõe de 12 quartos com nomes de aves e de árvores e de uma piscina com uma vista imperdível. Duplos desde 70€. 917 618 122, casadacisterna.com

Hospedaria Arco-Íris Ambiente confortável e familiar, para quem preferir ficar no centro de Figueira de Castelo Rodrigo. Duplos desde 35€, 913 887 718

 

Informações

Visite o site cm-fcr.pt

 

 

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