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CLEMENTINAS

15 Dezembro, 2017
CLEMENTINAS

Inunde a sua cozinha com a cor e o aroma destas frutas, ideais para acrescentar um tom cítrico aos doces ou um toque ácido aos pratos salgados

Rosemary Baron

A meio do outono, as clementinas já começam a aparecer pelos mercados. Deliciosamente doces, suculentas e aromáticas estas primas das tangerinas têm um sabor característico e uma pele brilhante e ligeiramente oleosa. Uma pequena ranhura é suficiente para deixar cair toda a casca e trazer à vista os gomos com um profundo sabor a laranja, facilmente separáveis e, o melhor de tudo, sem caroços.

A esta fruta ligam-se lendas antigas, como a que relaciona a clementina com o Natal: São Nicolau (em cuja figura se inspira hoje o Pai Natal), nascido na Grécia, no seio de uma família abastada, na segunda metade do século III, ainda jovem herdou uma fortuna. Um dia, quando soube da triste sina de três irmãs, filhas de um comerciante falido, que iam ser vendidas como escravas, atirou com três sacos de moedas de ouro pela janela da casa do pai das meninas para o ajudar com um dote e evitar a venda das jovens. Nalgumas pinturas medievais, São Nicolau usa laranjas a representar o ouro e há quem diga que, originalmente, foram estas frutas que se transformaram em moedas.

Mas a verdadeira razão para as clementinas serem indispensáveis numa mesa de Natal é provavelmente mais prosaica: esta fruta com cores de sol é um autêntico tónico durante os meses de inverno. Comer uma laranja requer algum trabalho, mas comer uma clementina é um impulso!

Abundantes durante o outono e o inverno, as clementinas, firmes e brilhantes, são perfeitas para fazer conservas e compotas – que se podem tornar prendas fantásticas!

Também se pode assar uma clementina no forno, previamente caramelizada, para obter uma deliciosa sobremesa. Pelo seu sabor doce e pelo toque ácido, é o ingrediente ideal para fazer xaropes; às carnes de porco e de aves acrescenta uma acidez subtil; nas sobremesas é uma alternativa ao sumo de laranja, sem esquecer que é na casca que se concentra o seu celestial sabor cítrico.

Aliás, há muito que as árvores de citrinos cativam poetas e escritores. Eugénio de Andrade, por exemplo, no seu poema infantil “Frutos”, escreveu a propósito das tangerinas: ”… deixai-me agora falar /do fruto que me fascina,/pelo sabor, pela cor, /pelo aroma das sílabas:/ tangerina, tangerina.” E Natália Correia criou “Uma laranja para Alberto Caeiro”, onde se lê ”De ser laranja gomo a gomo /o íntimo pomo como se enternece / e não cabe em si de amor / embriagada de saber /que a sua morte nos será doce.”

Mas o que nos interessa aqui são as clementinas. E qual é então a sua história? A maioria dos especialista considera a clementina um híbrido, uma fusão entre a tangerina e a laranja. O nome tem uma história: no século XIX, um monge chamado Clément foi enviado de sua casa, no centro da França, para cuidar de meninos órfãos numa aldeia perto de Oran, na Argélia. Jardineiro atento, o padre Clément descobriu por acaso um fruto no meio das árvores de tangerinas. Rapidamente as autoridades francesas registaram a fruta como nativa e puseram-lhe o nome do homem que a descobrira.

Até há pouco tempo, acreditava-se que a clementina resultava do cruzamento da laranja amarga (Citrus aurantium), encontrada em abundância pelos passeios das avenidas e parques dos países mediterrânicos, e a tangerina. Mas, em 2002, os cientistas isolaram o DNA da fruta e estabeleceram que a clementina é, afinal, o fruto resultante do cruzamento da tangerina com a laranja doce (Citrus sinensis).

A sua verdadeira origem pode, entretanto, estar no oriente. Alguns consideram a clementina idêntica à tangerina de Cantão (sudoeste da China) que poderia ter chegado à Europa numa das rotas comerciais que passavam pelo Mediterrâneo.

Seja qual for a sua origem, a clementina será sempre uma fruta do tempo mais frio, quando traz graça a uma salada de beterraba, cebola e nozes ou quando faz brilhar um prato de couscous com azeitonas e ervilhas. É também a sobremesa perfeita e leve, para quem quer fazer penitência dos festejos de fim de ano. Utilize as clementinas secas ou caramelizadas para decorar bolos, aromatizar o açúcar de polvilhar ou dar sabor a pães e queques. Escolha as frutas que parecem pesadas para o tamanho, com a pele firme e brilhante e sem sinais de químicos. As clementinas, como as tangerinas, são mais perecíveis do que as laranjas; compre a quantidade que vai consumir em poucos dias.

Para secar ou caramelizar a casca, remova-a com uma pequena faca bem afiada ou utilize um descascador. Caso tenham sido enceradas ou pulverizadas, esfregue-as gentilmente com água morna.

As clementinas são um antídoto contra as gorduras, e por conterem ácido fólico e tiamina, contribuem para o bom humor e para o bom funcionamento do sistema imunológico. O perfume e a sua cor de sol transformam-na no mais belo e versátil componente das refeições nos dias de frio.

 


SABIA QUE…

⇒ As clementinas não têm sementes, a menos que, por acidente, tenham resultado de uma polinização cruzada. Em 2006, um grande agricultor da Califórnia encontrou sementes nas suas clementinas e ameaçou processar os apicultores dos arredores acusando as suas abelhas de “invasão”.
⇒ Na China, durante o casamento, os noivos recebem um par de clementinas. Na noite de núpcias, depois da noiva as descascar, os dois comem os frutos enquanto fazem votos de vida próspera um ao outro.
⇒ Apropriadamente para uma fruta típica de um período do ano cheio de trabalho e stress, a raiz latina da palavra clementina é “clemência”.

 

RECEITAS:

PATO FATIADO COM MOLHO PICANTE DE CLEMENTINAS, CREPES E VEGETAIS

TRIFLE OUTONAL DE CLEMENTINAS

PASTÉIS DE CLEMENTINA COM AMÊNDOAS E FRUTAS CARAMELIZADAS

FILHÓS DE CLEMENTINAS COM AÇÚCAR LARANJA E SORBET

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