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EM TONS DE ROSA

15 Novembro, 2017

LUÍS RAMOS LOPES

Com o calor a instalar-se e as refeições ao ar livre mais frequentes, chega a hora dos rosés. Capaz de harmonizar com uma grande variedade de pratos, alegre, frutado e refrescante, quase sempre a preços bem acessíveis, é o perfeito vinho de Verão

Parece ter ficado para trás o tempo em que os portugueses olhavam com absoluto desprezo para os vinhos de cor rosada. Mesmo quando uma marca bem portuguesa, Mateus, levava (e continua a levar) pelo mundo, com enorme sucesso, o nome de Portugal. Mas para o macho lusitano rosé era coisa de senhoras e Mateus nem sequer era vinho.

Muita coisa mudou entretanto. Primeiro de forma algo tímida, depois em força, a oferta de vinhos rosados multiplicou-se ao longo dos últimos cinco anos, com rosés de todos os tipos (mais doces, mais secos), de todas as cores (do “blush” pálido, ao tinto ligeiro), de todas as regiões (dos Verdes ao Algarve) e todos os preços (dos €2 aos €25…). Hoje, quase não há produtor de vinho que não tenha um rosé. Nos últimos dois anos foi-se definindo uma tendência: vinhos cada vez mais claros na cor (ao estilo dos rosés franceses da região de Provence), delicados, frutados, com boa acidez e álcool moderado. O boom turístico que vem impulsionando a economia portuguesa também tem ajudado, e muito, a fazer crescer a procura de rosés.

Ao contrário do que muitos pensam, o rosé não é uma mistura de vinho branco e tinto. Trata-se de um vinho produzido exclusivamente a partir de uvas tintas, colhidas normalmente mais cedo do que o habitual, para conservar um bom teor de acidez. O mosto oriundo destas uvas é fermentado em breve contacto com a película. Como é na película (pele) das uvas que estão os pigmentos que originam a cor do vinho, esse curto contacto é apenas suficiente para produzir uma cor ligeira. Quanto mais prolongado o contacto, mais intensa será a cor do rosé. A fermentação completa com as películas daria origem a um tinto, mas não é isso que se pretende aqui.

O rosé é um dos vinhos mais polivalentes à mesa, combinando bem com uma grande variedade de pratos. Tem a frescura de boca (acidez) de um branco mas os aromas e sabores (morangos, framboesas, amoras) de um tinto, pelo que harmoniza com iguarias tão diversas como cozinha oriental, peixes fumados (salmão, espadarte, bacalhau), sardinhas assadas, saladas diversas, mariscos com molho (arroz, cataplana), enchidos não muito gordos, carnes brancas (galinha, codorniz) e, é claro, as massas em todas as suas formas e preparações, sobretudo se o molho de tomate estiver por perto.

Os vinhos com alguma doçura residual (muito comum, sobretudo nos rosés de preço mais acessível) são perfeitos como aperitivo, bebidos sem precisar de muito acompanhamento (mas sempre em boa companhia). Os mais secos, são feitos para acompanhar a refeição, e nunca nos deixam ficar mal.

Quanto a preços, há de tudo. Mas encontramos qualidade em vinhos de menos de 3 euros (o JP é um excelente exemplo) e, daí para cima, a oferta é quase ilimitada, com algumas propostas de luxo acima dos 20 euros. Mas aqui falamos já de vinhos muito especiais, por vezes fermentados em barrica, e até com capacidade para crescer em garrafa. Regra geral, porém, quando apetece um rosé quer-se um vinho sem gravata: acessível, informal, alegre, jovem, irreverente, frutado e refrescante. À medida do Verão, não é verdade?

 

 

 

Mateus Vinho rosé, €3,30

O best-seller da Sogrape nunca passa de moda e continua a fazer furor por esse mundo fora. O segredo está na consistência de qualidade e no equilíbrio entre a fruta expressiva, a leve doçura, o toque de gás, tudo bem feito e consensual. Perfeito aperitivo.

 

 

JP Península de Setúbal rosé, €2,49

Vale muito mais do que aquilo que custa, este rosé de Azeitão feito a partir da uva Syrah. Exuberante de fruta, com um toque floral, muito equilibrado e fresco, com boa acidez a compensar a leve doçura, ótimo com sushi/sashimi e saladas.

 

 

Pousio Regional Alentejano rosé, €4,59

Com Trincadeira, Aragonez e Syrah, este rosé da Vidigueira é bem aromático, com sugestões de bagas silvestres, ervas do campo. Intenso, cheio de sabor, seco, com acidez viva e refrescante, bom parceiro para saladas de frango, massas e enchidos magros.

 

 

Lagoalva Regional Tejo rosé, €4,80

A partir de Alvarelhão, Syrah e Touriga Nacional, esta antiga casa de Alpiarça faz um rosé de bonita cor salmonada, perfil sólido, cheio de frutos silvestres, suave, cremoso, com muita harmonia. A boa acidez aceita perfeitamente as gordas sardinhas assadas.

 

 

Covela Regional Minho rosé, €8,50

Um rosé de Touriga Nacional, vindo do vale do Douro minhoto, ali ao pé de Baião. Muito elegante, fino, com sugestões florais, morangos silvestres, framboesas, acidez vibrante a dar muita frescura, fará excelente harmonia com salmão fumado de boa estirpe.

 

 

 

Este artigo foi publicado na edição de julho/agosto de 2017 da revista Food and Travel Portugal.

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