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FAJÃ DOS CUBRES, A ALDEIA DE MAR

by Food and Travel Portugal
FAJÃ DOS CUBRES, A ALDEIA DE MAR

A aldeia desenha-se ao lado do mar, defendida por um impressionante anel de seixos rolantes. A pesca, a apanha de marisco e a produção singular do queijo de São Jorge dão vida aos pratos mais populares da ilha.

 

A aldeia da Fajã dos Cubres está localizada num daqueles lugares improváveis do nosso planeta. Quem a visita fica maravilhado com o enquadramento natural em que foram construídas as casas de basalto, as adegas e a ermida desta pequena povoação da freguesia da Ribeira Seca, concelho da Calheta, ilha de São Jorge, Açores. O casario dispersa-se entre a falésia, que resguarda a fajã, e o mar. A separar a aldeia do oceano, está um verdadeiro anel protector de seixos negros rolados, que transformam esta paisagem num cenário único. A completar o quadro, desenha-se a Lagoa dos Cubres, criando uma zona privilegiada para a observação de aves marinhas e migratórias. A variedade da fauna e da flora local é um dos motivos principais de atração de turistas, seduzidos pela tranquilidade de um lugar onde ainda é possível acordar de manhã com o cântico dos pássaros. Por isso, esta área está classificada como Zona Húmida de Importância Internacional, ao abrigo da Convenção de Ramsar, de 1971.

A pesca esteve sempre ligada ao modo de vida dos habitantes da Fajã dos Cubres. Quando o mar deixa, a pesca faz-se de barco, quando as ondas não o permitem, a solução é a pesca à cana em cima das rochas. Foi assim ao longo dos tempos, numa localidade que também sofreu os efeitos de vários terramotos, como o de 1757, que destruiu a povoação por completo ou, mais recentemente, o de 1980 que também provocou estragos consideráveis.

A ermida de Nossa Senhora de Lourdes, datada de 1908, é um lugar de visita obrigatório na aldeia, até porque a sua construção – patrocinada por um benemérito da terra, emigrado nos Estados Unidos – está ligada a um episódio que ainda hoje leva ali muitos peregrinos: o aparecimento de uma nascente que estava seca há muito. A água, que corre a pouca distância da ermida, ainda é considerada milagrosa por muitas pessoas que aqui vêm banhar-se, procurando cura para vários tipos de males.

Em termos gastronómicos, São Jorge tem um trunfo precioso: a amêijoa gigante da Lagoa da Caldeira de Santo Cristo, um bivalve cuja introdução na ilha está ainda envolta em mistério. O certo é que estas amêijoas são uma referência culinária e estão presentes em praticamente todos os menus. “Os turistas quando provam dizem que nunca comeram nada assim, são maiores e mais saborosas do que as amêijoas normais”, conta-nos, com orgulho, Paula Silveira, do ‘Snack Costa Norte’, na Fajã dos Cubres, o único lugar da aldeia que serve refeições. E como cozinham? “O mais natural possível”, explica Paula, “só levam alho, cebola e azeite”. Muitos comem este prato como um petisco, mas outros fazem dele uma refeição, usando apenas pão para acompanhar o saboroso molho das amêijoas. “No verão, toda a gente quer comer na rua, ninguém fica dentro do restaurante”. A gastronomia local, alimenta-se ainda de outros produtos de proximidade: o peixe, claro, abundante ao longo do ano. “Depende da época”, diz-nos Paula Silveira, “Temos chernes, meros, chicharros e outros, para grelhar ou fritar, ou para fazer caldeirada de peixe”. Do lado de terra, chega a carne dos animais que passam o ano todo ao ar livre, comendo nas pastagens férteis da fajã. Por isso, a costeleta de vaca ou o naco são também muito populares por aqui”. Quem procura doces, vai encontrar o ‘espécie’, o mais tradicional de São Jorge, com uma forma arredondada, feito à base de pão torrado, açúcar, ovos, erva-doce, manteiga, limão e especiarias: nós moscada, pimenta e canela.

Para seguirmos ao encontro de outro produto emblemático do concelho da Calheta, temos de viajar uns curtos 10 quilómetros até ao lado oposto da ilha. Estamos agora na Fajã dos Vimes e é aqui, nos terrenos em volta do Café Nunes, que se encontra a única plantação de café da Europa, cuja introdução na ilha é atribuída a um emigrante que vivia no Brasil, no século XIX, e trazia grãos de café quando vinha visitar a sua ilha. ”Temos 700 plantas de café-arábica, das quais mais de 500 já estão a produzir. O café gosta deste microclima: calor e humidade, noutros pontos da ilha as plantações não vingam”, explica-nos Alzira Nunes que, com o marido, Manuel Nunes, dirige esta pequena exploração familiar. Os grãos apanham-se de maio a agosto, quando estão vermelhos. “Apanhamos grão a grão, eles não amadurecem todos ao mesmo tempo”, conta-nos Alzira Nunes, “Depois, seca-se ao sol e descasca-se, os grãos têm duas cascas. A seguir é escolhido à mão, de novo grão a grão, e torrado”. A torrefação é feita numa grande frigideira de ferro, que pode torrar dois quilos de cada vez. A plantação é biológica: “O único fertilizante que usamos são as borras e as cascas do próprio café. É um trabalho muito pesado e demorado”. Mas compensa: “Vem gente do mundo inteiro para provar o nosso café.” Quem prova quer levar e, por isso, Alzira Nunes também vende o seu café em pequenos saquinhos de linho de 50 e 100 gramas aos turistas que querem viajar com o sabor e o cheiro do café de São Jorge na mala.

Nesta ilha, vamos encontrar outro produto tradicional ligado à indústria conserveira de São Jorge. Na fábrica Santa Catarina, na Calheta, propriedade de uma empresa do governo açoriano, seguem-se os métodos artesanais usados pelos mais antigos mestres conserveiros. Desde logo, por razões de sustentabilidade, a pesca do atum na ilha de São Jorge, usa uma arte centenária, o “Salto e Vara”: os pescadores detetam os atuns, desligam os motores e lançam isco vivo ao mar (peixes mais pequenos), puxando depois os atuns com cana e anzol para o interior do barco. Esta técnica requer enorme perícia dos atuneiros, mas permite uma pesca amiga do ambiente, sem pôr em risco outras espécies. A fábrica emprega 139 pessoas e produz uma significativa variedade de conservas de atum, como os filetes com tomilho, funcho, pimenta dos Açores, gengibre, 4 pimentas, manjericão, azeite biológico e caril, por exemplo. A preparação do atum inteiro é manual, assim como o descasque e preparação de todos os ingredientes da pasta de atum e o enchimento em frascos de vidro e rotulagem. Os ingredientes usados nas conservas, como o leite, cebolas, pimentos, alhos, salsa ou a massa de malagueta, também são originários das hortas das fajãs.

Vir a São Jorge e não falar do queijo é impossível. A produção deste verdadeiro símbolo gastronómico da ilha é responsável por cerca de 80 por cento do valor gerado pela economia local. Os queijos são enormes rodas de 10 a 12 quilo, conhecidas no mundo inteiro. O queijo de São Jorge não é a mesma coisa que o queijo da ilha, como gostam de especificar os produtores locais. Este é feito de leite cru, os outros usam leite pasteurizado, e isso faz a diferença. A qualidade é certificada por um painel de provadores da Confraria do Queijo de São Jorge que avalia permanentemente os queijos desta ilha. António Aguiar, presidente da cooperativa Uniqueijo, conta-nos que são produzidos “30 milhões de litros por ano, transformados em 2.700 toneladas de queijo”, dividido em queijo de São Jorge (o que tem melhor pontuação) ou queijo da ilha. A cura varia entre os 3 meses (12€/kg) e os 36 meses (uma edição especial vendida a 30€/kg). Conclui António Aguiar: “O leite de São Jorge é considerado um dos melhores do mundo. Nesta ilha não há estábulos, as vacas passam 365 dias por ano a comer erva nos pastos”.

 

 


Informação de viagem

 

Onde comer

Os Amigos Localizado na Ponta de São Lourenço, na Calheta, mesmo junto ao mar. Com uma sala confortável, serve as indispensáveis amêijoas da Lagoa da Caldeira, além de outros pratos regionais, como a alcatra. 295 416 421

Snack Costa Norte É o único espaço de restauração na Fajã dos Cubres. As amêijoas de São Jorge, únicas pelo seu tamanho e sabor, não falham na ementa. Mas também há lugar para os suculentos nacos de carne de vaca local. 917 795 238

Café Camponês Fica no lugar de Biscoitos, na freguesia da Calheta e serve pratos regionais como o polvo guisado, os torresmos de porco ou a morcela com batata-doce. 295 700 864

 

Onde dormir

Casa da Arcada Casa tradicional, situada na própria aldeia de Fajã dos Cubres, com dois quartos, uma sala e cozinha equipada. Permite alojar cinco pessoas. Preço: 60€ por noite, 927 148 673

Casa da Fajã dos Cubres Casa típica da fajã, com dois quartos, sala, uma cozinha equipada e um quintal onde é possível jantar ou fazer churrascos. Permite alojar quatro pessoas. Preço: 40€ por noite.

Casa dos Cubres Localizada na aldeia, dispõe de 2 quartos, cozinha equipada e casa de banho. Permite alojar quatro pessoas. Preço: 60€ por noite.

 

Informações

Visite o site cmcalheta.pt

 

 

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