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PORTIMÃO: O VERDADEIRO ALGARVE

por Food and Travel Portugal
PORTIMÃO: O VERDADEIRO ALGARVE

Antiga vila de pescadores, Portimão é agora um dos pontos mais dinâmicos da costa algarvia. O repórter Michael Raffael viajou até ao sul de Portugal e encontrou um ritmo de vida descontraído e um cenário gastronómico focado na incrível oferta que sai do mar.

O Hotel Bela Vista ergue-se virado para a espetacular Praia da Rocha. Provavelmente um dos primeiros hotéis do Algarve, este foi construído em pleno século XX e recebeu várias figuras históricas importantes. Na altura, exibia elementos que os industriais portugueses da província gostavam de observar nas suas mansões: paredes de azulejos, uma escadaria de madeira do Brasil e, do lado de fora, uma fachada imponente com um mirante ornamentado. Mas o mais importante é que ficava a uma distância suficientemente longa do cais de Portimão; do fumo das fábricas de conservas, do cheiro a atum e sardinha e da buzina que soava cada vez que chegava um barco.

O velho porto da zona ribeirinha, na foz do rio Arade, onde os barcos estão ancorados, lutou contra os avanços dos promotores imobiliários. É um emaranhado de ruas residenciais desordenadas, com poucos acessos ao turismo de massa, onde há carros estacionados em cima dos passeios. Os cafés e as lojas de rua permanecem como antes e os vestígios do passado industrial de Portimão são perfeitamente visíveis. As cegonhas fazem ninhos no topo de chaminés de tijolo abandonadas, as salinas formam um padrão xadrez ao lado dos arcos da ponte que atravessa o estuário até Ferragudo. O Museu de Portimão, perto do Jupiter Marina Hotel, foi instalado numa antiga fábrica de conservas.

Uma chalupa (barco) restaurada, a Osiris, costumava recolher o pescado dos barcos em alto mar e trazê-lo para o porto, para que esses pudessem continuar a pescar. Hoje, permite que os visitantes explorem as grutas sob as falésias da Ponta da Piedade, em Lagos, ou partam à procura de golfinhos. Segundo o chef do Bela Vista, João Oliveira, Portugal tem alguns dos melhores peixes do mundo e o Algarve tem os melhores de Portugal. E justifica: ‘A água aqui está a 15ºC. No norte está a 10ºC. Temos peixe que pode ser encontrado na costa africana e no Mediterrâneo, assim como no Atlântico.’

Vai ao mercado quatro dias por semana, às sete da manhã, quando abre. ‘Não vou lá comprar de olho no preço. Quero o peixe da época no seu mais alto nível de qualidade. Para quê pagar 25 euros/quilo de robalo se consigo encontrar um cherne perfeito ou atum bonito?’ Os peixeiros daqui têm barcos de pesca desportiva no Alvor, uma vila costeira. Exibem peixe-porco, várias espécies usadas para a caldeirada, tamboril, cação e enguias. Também há peixe-galo, dourada, solha, tainha, cavala, peixe-espada-preto, chocos, lulas, polvo e vários tipos de camarão.

Depois de uma manhã a tirar escamas, peles e filetes, seguem para a Casa das Bifanas. Este café serve as típicas bifanas com molho piripiri ou com mostarda, e com cerveja Silva para acompanhar.

Formações rochosas na Ponta da Piedade

A última fábrica de conservas fechou há 30 anos, mas ainda há barcos que trabalham fora do porto comercial, na outra margem do estuário do Arade. Joaquim Manuel Dias é o capitão do Arrifana, o barco campeão da pesca de sardinhas que ainda faz deste o seu negócio. ‘Quando os meus filhos decidiram não se tornar pescadores, partiram-me o coração,’ conta ele. As sardinhas podem ser parte da identidade nacional, ‘São os mais limpos de todos os peixes porque só se alimentam de plâncton,’ explica Dias, mas os números desta espécie continuam a diminuir. Colocando as coisas em contexto, no seu período áureo, Portimão e Ferragudo empregavam 27.000 trabalhadores que processavam peixe.

Há uma forma correta de comer sardinhas assadas, explica o vinicultor Rui Virgínia durante um excelente almoço na Taberna da Maré. O primeiro passo é colocá-las numa salmoura durante algumas horas. O segundo é colocá-las sobre uma fatia de pão caseiro, para que este fique ensopado com o seu óleo. Terceiro, retira-se a pele, revelando a sua carne branca. Quarto, coma-a com as mãos. Quinto, come-se o pão. Depois de alguns copos de Branco Grande Escolha, uma mistura 50/50 de arinto e chardonnay, percebo as razões pelas quais o nosso interlocutor é um apaixonado pelos mais ínfimos detalhes.

Na virada do milénio, além da cooperativa local, o Algarve não tinha vinhos de referência. Mas isso está a mudar rapidamente. A adega do Senhor Virgínia, em Barranco Longo, parte da Lagoa DOP entre Faro e Portimão, está (juntamente com a Quinta dos Vales, Quinta da Vinha e Quinta João Clara) a criar vinhos para além daquele fresco que se bebe apenas na praia. O seu rosé – Aragonez e Touriga Nacional – está entre alguns dos vinhos de mais qualidade. Combinam muito bem com as cataplanas, por exemplo. Este estufado popular da região, junta os melhores produtos do mar e da terra com um caldo extremamente saboroso. O pescador reformado, Belchior Rocha, dá a sua opinião sobre como se devem tratar as amêijoas: ‘Cozinhe-as em azeite e alho até elas se abrirem. Se as deixar mais um segundo depois disso, ficam com textura de plástico.’ Ele apanha as suas no Alvor, enterrando os pés na lama e puxando-as para a superfície com a sua pequena sachola. Podemos saber onde se escondem as maiores graças às duas bolhas de ar que as denunciam. O Zé Morgadinho, um da meia-dúzia de restaurantes perto do mar, vende-as. Como saber se estão perfeitas? Se parecerem encolhidas, não estão frescas ou foram demasiado cozinhadas.

O chef Oliveira serve uma amêijoa apenas, aromatizada com gengibre e líchia como um amuse-bouche. De seguida vem um raminho de algas do mar fritas. Mas ele diz que não se incomoda com as modas dos restaurantes: ‘O mundo é a minha cozinha. Só quero encontrar a melhor maneira de cozinhar os melhores ingredientes.’

As ostras cobertas com molho holandês e lascas de trufa de verão, lagostim com couve flor e dois tipos de salicórnia, peixe-galo, ovas e cogumelos selvagens adicionam caráter a um menu degustação que permite aos clientes desfrutar o que está no prato sem terem de desconstruir nada. Só o carapau chamuscado com o maçarico é que nos faz subir o degrau do delicioso para o genial. O chef matura uma espécie de garo (garum) com as cabeças e vísceras dos peixes que limpa durante várias semanas, adiciona o líquido a um vinagrete de açúcar amarelo, óleo de sésamo e vinagre de arroz e nele mergulha os filetes.

O Caniço, na Prainha, pertence ao clube dos restaurantes ‘e agora para algo completamente diferente’. Para o alcançar deve apanhar um elevador escavado na falésia e uma passagem ao longo de um túnel. A vista – mar, rochas e uma praia de areia branca – é aquela com que sonhamos nas noites frias de inverno. O marisco também. Pedaços de garoupa, camarão fresco e qualquer tipo de peixe grande que caiba num prato ou que o empregado de mesa consiga transportar neste local sempre cheio. Na época alta, a movimentação pode fazer com que um agorafóbico hesite em reservar uma mesa, mas mesmo assim valeria a pena ir. As suas porções não têm nada em comum com os petiscos, em tamanho. Servidos em bares e em cafés, podem variar entre azeitonas britadas, salada de orelha de porco com feijão frade, azeite e vinagre ou uma das várias receitas de bacalhau.

No Café Brasil Marisqueira, em Portimão, 100g de percebes vindos de Sagres são empratados juntamente com tostas e manteiga. O truque é agarrá-los pela concha com uma mão, retirar a pele firme com a outra, torcendo-a, e morder a carne saborosa no seu interior. Se o Benfica jogar contra o Sporting e estiver entre amigos, um quilo de percebes com uma garrafa ou duas de alvarinho chegam perfeitamente para a primeira parte do jogo. Na segunda, a aguardente de Medronho ajuda-o a sobreviver ao tempo extra. Do outro lado da rua, o Holandês dos Caracóis faz concorrência, servindo travessas enormes repletas de caracóis. Os clientes passam pelo restaurante depois do trabalho e sentam-se a apreciar esta iguaria.

Especialidades doces da Casa da Isabel

‘Os portugueses têm queda para a doçaria, não conseguimos passar a refeição sem um bolinho ou uma sobremesa,’ escreveu Edite Vieira no The Taste of Portugal. ‘Cada terra ou vila tem as suas especialidades.’ Na pastelaria A Casa da Isabel, cada um dos doces preparados pela pasteleira autodidata Isabel Ramos tem a sua personalidade. A sua filha Sara, que trabalha ao lado de Ramos, admite que alguns dos seus doces de ovos são clássicos criados nos conventos. Outros foram colecionados a partir de receitas de amigos, ‘Mas nós tentamos,’ conta, ‘fazer as coisas à nossa maneira. O bolo de alfarroba é uma receita nossa, e até começou com um erro. Durante a manhã, os clientes vêm cá para beber café e comer um pastel. Durante a tarde, preferem bolo e chá.’

O menu divide-se entre especialidades regionais: tartes e cheesecakes, bolos e biscoitos, queijadas e toucinhos do céu. A preparação deste último, junta os sabores típicos da doçaria algarvia: amêndoas, ovos e açúcar. Para além da versão tradicional, a Casa da Isabel também serve outras com um toque especial: adicionando figos, batata doce e amaranto.

A açorda de camarão tem a textura de um puré. ‘Os turistas não costumam apreciar,’ confessa um empregado do Zé Morgadinho. Preferem as pizzas que são servidas nos restaurantes do centro do Alvor. Ninguém os culpa. Este prato pertence a um tempo em que as aldeias não eram pavimentadas e as crianças andavam descalças. Mas é um prato com uma história e, para aqueles com bom paladar, um eco de uma cultura em desaparecimento.

As extensões de areia da Praia da Rocha podem ser o que arrasta milhões de pessoas para o Algarve todos os anos. Porém, só precisamos escavar com uma sachola metafórica para encontrar as verdadeiras joias desta região, que residem sob a superfície.

Michael Raffael e Mark Parren Taylor viajaram até Portimão com a cortesia do Turismo do Algarve e da Ryanair.

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