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RIO DE ONOR, COMUNIDADE SEM FRONTEIRAS

por Food and Travel Portugal
RIO DE ONOR, COMUNIDADE SEM FRONTEIRAS

Rio de Onor é uma preciosidade da natureza e do trabalho dos homens, lado a lado, com a aldeia espanhola vizinha. A criação de gado, desenvolvida de forma comunitária, e a caça, foram sempre o motor gastronómico da região, onde também brilha o cabrito de Montesinho.

Artigo publicado em janeiro de 2018.

De Bragança a Rio de Onor é um saltinho. Tempos houve em que esta distância curta de 26km, por falta de estradas, era um obstáculo intransponível. A aldeia, separada pelo pequeno rio que lhe dá o nome, lado a lado com a vizinha aldeia espanhola, Riohonor de Castilla, foi desenvolvendo métodos próprios de organização, formas criativas de escapar ao isolamento e de resolver em comum os problemas que eram de todos. O pastoreio dos animais, o trabalho da azenha ou o forno do pão foram sempre geridos de forma comunitária e os problemas resolvidos no conselho da aldeia, formado pelos cerca de 50 chefes de família.

No ano novo nomeavam-se dois mordomos, um de cada lado do rio, que ficavam responsáveis pela organização do conselho”, conta-nos Mariano Preto, habitante natural da aldeia. A votação era secreta, feita com pedras recolhidas num chapéu. Um risco na pedra ou a falta dele indicavam o sentido de voto. “Quando havia conselho, o mordomo tocava o sino e nós reuníamos para debater qualquer assunto. Chegámos a ter aqui 300 cabeças de gado e 300 cabras, tudo comunitário”, acrescenta. As más práticas dos habitantes eram traduzidas em multas, cujo valor era ditado pela vara da justiça pago em vinho. Era o que acontecia, por exemplo, quando um rapaz espanhol era apanhado a namoriscar uma rapariga portuguesa: “Tinha de pagar o vinho. E, no caso contrário, era igual. Mas isto era um divertimento para todos”, explica Mariano.

Em  Rio de Onor nunca se usou a palavra fronteira, sempre se passou livremente de um país para o outro. Mesmo quando a guarda-fiscal, a seguir ao 25 de Abril, pôs uma corrente a separar a estrada entre as duas aldeias – e os dois países – os habitantes abriram um caminho mesmo ao lado e continuaram a passar com os seus animais e alfaias agrícolas. A corrente foi retirada em 1990.

Da tradição e do convívio entre os povos das aldeias dos dois países surgiu uma nova linguagem, o rionorês, dialeto ainda hoje falado por alguns habitantes com orgulho.

O casario preservado, de pedra entalhada, todo uniforme, é um convite a apreciar a arquitetura simples desta aldeia integrada no Parque Natural de Montesinho. É por estas serras que pastam milhares de cabras e ovelhas, entre as quais as mais de 150 do rebanho de Joaquim Pereira, da aldeia de França. “Com um mês, os cabritos já estão prontos para comer”, explica-nos. As cabras pastam livremente todos os dias e é isso que dá o sabor à carne do cabrito de Montesinho, ingrediente central de um dos pratos mais conhecidos desta região. Outro prato incontornável, é a posta mirandesa, grelhada na brasa, apenas com sal e um pouco de azeite. É assim no Solar Bragançano, um restaurante de referência em Bragança, há mais de 30 anos, lugar de visita obrigatória para quem passa pela região. António Desidério, o proprietário, segue sempre a mesma regra: “Nunca levar para a mesa uma coisa que a minha mãe ou a minha avó não soubessem identificar”.

O espaço mantém-se sóbrio e confortável e a carta é a mesma desde a abertura. “Nunca fomos em modas nem em modernismos. Os produtos têm de ser da região e tudo tem de cozinhar lentamente. Por isso, cozinhamos à lareira, em potes de ferro”, explica-nos António Desidério. Tal como numa tradicional casa transmontana! Na ementa, além da posta, do cabrito, do cordeiro ou da truta, há espaço para os pratos de caça (abundante na região) sempre feitos nos potes – arroz de lebre, javali ou veado estufados, faisão e perdiz – e uma lista de sobremesas como o bolo de castanha e noz ou a abóbora dourada, também eles à base de produtos transmontanos.

Doces regionais que vamos encontrar também na loja Rota dos Sabores, no Mercado Municipal de Bragança. Quem toma conta do espaço é Eurico de Castro, um chef que tem sabido tirar o melhor partido dos produtos locais. Os ouriços de castanha são um bom exemplo disso, mas também o bolo à mirandesa com maçã ou os bolos rei de castanha e de abóbora.

António Pires, na aldeia de Parada de Infanções, é um dos produtores de castanha e de azeite da região: “Tenho 500 oliveiras e 500 castanheiros”, conta-nos em sua casa. Este ano [2018] correu de forma diferente para os dois produtos: “Tive metade da castanha do ano passado, mas quase o dobro das azeitonas. Nunca tive tanta azeitona na minha vida”. A azeitona sai para a produção de azeite – produto de excelência em Trás-os-Montes – e a castanha é vendida fresca ou para transformar em pasta de castanha.

Na mesma aldeia, vamos encontrar outro produto tradicional da região: os enchidos de fumeiro. Francisco Figueiredo,”quase na brincadeira”, começou a fazer enchidos para vender numa feira, há quatro anos. Entretanto, desenvolveu o seu projeto e instalou uma pequena unidade de produção, onde faz o seu fumeiro, “sempre com madeira de castanheiro”. Butelo, alheiras, salpicão, linguiça, bucheira (feita com o pulmão do porco) e a moura saem diariamente para venda na própria loja, em supermercados e até para clientes em França.

Mas não é possível andar por estas paragens e não falar de dois outros símbolos culturais transmontanos: as navalhas e os caretos. Amável Antão descobriu o seu talento para fazer máscaras, há 15 anos, por mero acaso. A sua narrativa parece uma lenda: “Ia a passar junto ao rio Sabor e vi um pedaço de madeira cuja forma me chamou a atenção. Apanhei-o, trouxe-o para casa e com ele fiz duas máscaras. Ninguém acreditava que tinha sido eu a fazê-las!”. E nunca mais parou. Faz máscaras em madeira de nogueira, macieira, castanheiro, freixo, amieiro e vende-as para decoração ou para coleccionadores. Como cada aldeia transmontana tem o seu tipo de máscaras, usadas pelos rapazes solteiros durante o carnaval, seguindo a tradição, não lhe faltam os motivos de inspiração. Os preços podem ir de 80€, para máscaras mais simples, a 250€ – as mais trabalhadas.

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