Home Novidades MAURÍCIA, DELÍCIA

MAURÍCIA, DELÍCIA

by Food and Travel Portugal
MAURÍCIA, DELÍCIA

As influências chinesa, europeia e indiana misturam-se harmoniosamente na gastronomia desta pequena ilha no Oceano Índico, criando sabores únicos – ainda mais apaixonantes que o seu famoso pôr do sol, como descreve Alex Harris.

O paraíso foi desenhado à imagem da ilha Maurícia. Pelo menos foi isso que sugeriu Mark Twain, depois de aqui ter vivido, referindo-se provavelmente às cascatas tropicais e às praias fenomenais. E o resto do mundo certamente que concorda. Todos os anos, centenas de milhares de viajantes como eu, aterram nesta pequena nação.

É uma ilha para o romance, as luas de mel e o Instagram. Aqui, a modernidade ainda não chegou, mas podemos ter umas férias de luxo por um preço relativamente acessível. Assemelha-se à fotografia de um paraíso tropical saído de um filme, misturado com a Índia colonial, aquecida pelo sol africano.

Mas na ilha Maurícia há muito mais do que linhas costeiras pitorescas e vestígios imperiais. Para começar, Twain não escreveu nada sobre a comida. E esta ilha é um caldeirão de culturas, criando uma cozinha tão variada que não se trata de fusão, mas sim de explosão. Adicione a esta mistura uma quantidade crescente de restaurantes novos, repletos de talento culinário criativo – desde os seguidores da cozinha francesa até aos protegidos dos grandes chefs Michelin londrinos – e uma população que deseja fugir aos lugares comuns dos ‘destinos paradisíacos’ ou das ‘melhores praias’.

Beira-mar, no Four Seasons Resort

Vamos então diretos ao tema da comida. A praia pode esperar e eu já estou carregado de sugestões de habitantes locais faladores, que conheci no avião. Assim, vamos primeiro ao coração da gastronomia mauriciana: um mercado vibrante.
O mercado de Mahébourg é uma celebração da diversidade da ilha. Famoso pelos seus vegetais e peixes, este quarteirão fica repleto de produtos às primeiras horas da manhã. ‘Ficará cheio de gente muito em breve,’ diz um dos vendedores. O mercado é um turbilhão, quase psicadélico ao olho, com um aroma pungente. O incenso luta com o cheiro do peixe seco e os xailes chamativos servem de toalha para as bancas, onde cada mercador grita os preços dos seus produtos. Todos os bazares deviam ser assim, avassaladores para os sentidos.

A vasta coleção de ingredientes disponíveis revela a história da ilha Maurícia. Primeiro, povoada pelos holandeses, depois colonizada pelos franceses, que trouxeram os escravos africanos, a ilha foi então tomada pelo império inglês, que mandou vir mais trabalhadores indianos. Mais tarde chegaram os chineses a esta mistura dominada pelos ingleses e caracterizada pelo crioulo francês. E é por isso que, na maior parte dos restaurantes, nos vemos rodeados de ingredientes e especiarias indianas e asiáticas e técnicas de cozinha francesas.

Aqui somos encorajados a agarrar e a tocar nos produtos. Somos apresentados ao chuchu (também conhecido como chayote); e depois a uma grande quantidade de cabaças e beringelas de cores que nunca encontraremos nas nossas mercearias. A emoção obriga-nos a agradecer a inexistência de hipermercados na ilha Maurícia.

Se for até Mahébourg, leve a sua máquina fotográfica e conheça os pescadores. São calorosos – pelo menos aqueles que nós conhecemos – e observá-los a trazer as suas pescarias de uma forma quase primitiva, com os peixes ainda a contorcerem-se ao sol, na água salgada, é uma experiência intensa. Todas as garoupas, lucianos-do-golfo, peixes-papagaio, unicórnios-de-espigão-azul e bodiões-de-pluma são pesados e lançados para um cesto, enquanto uma lagosta faz uma tentativa de fuga por entre as minhas pernas.

‘Os mercados de peixe estão espalhados ao longo da linha costeira da ilha,’ diz-me um pescador. Um jovem rapaz pega no cesto, liga a sua mota e arranca para fazer a sua ronda distributiva. Daqui a pouco, este peixe estará no prato. É usado das formas mais variadas que se podem imaginar. Mais tarde, nesse dia, Nicolas Vienne, chef executivo do Four Seasons Resort Mauritius, em Anahita, contou-me que as águas aqui podem alojar sabores invulgares. ‘Os peixes da lagoa têm um cheiro e um gosto que podem ser demasiado fortes para alguns.’ Mas se quiser comer como um local, opte pelo bodião-de-pluma num belo caril. É esse o verdadeiro sabor da ilha: sal marinho e lama.

Não há melhor forma de perceber como é que os mauricianos utilizam os ingredientes, do que visitar uma cozinha tradicional. Consegui combinar um encontro com Marie Michèlle, matriarca de uma quinta gerida pela sua família, com o mesmo nome. Está situada em Midlands – uma zona fértil no interior da ilha, que exige uma viagem de carro, mas que vale totalmente a pena.

Muitos dos ingredientes do mercado são desmistificados no Kot Marie-Michèlle. O chuchu é servido em conserva assim que lá chegamos. É um amuse-bouche fibroso e nutritivo, para aguçar o apetite, antes dos aperitivos fritos – é assim que cozinham praticamente todos os vegetais trazidos do mercado –, servido em grandes quantidades como entrada. É bastante intimidante para o meu palato e, honestamente, uma forma meio gordurosa de comer os produtos frescos, mas é a cozinha local no seu melhor – generosa, partilhando petiscos saídos da fritadeira. Não me surpreende que o número de diabéticos esteja a aumentar.

Os nossos anfitriões recebem-nos calorosamente na cozinha. Neste país, cozinhar é um momento familiar e toda a gente ajuda. A cozinha é, principalmente, indiana. Na quinta, Marie Michèlle e os seus parentes sorriem ao longo de toda a preparação do caril. Uma panóplia impressionante de especiarias é adicionada aos poucos. Vejo um peixe e dizem-me que aquele veio diretamente dos meus amigos do mercado de Mahébourg. Há frango, claro (‘Nós comemos muito frango e peixe nos nossos caris’ diz Marie), e carne de javali selvagem, nativo das redondezas, imersos num caril escuro e de aparência deliciosa.

Na ilha Maurícia, não se pode servir um caril sem os seus acompanhamentos obrigatórios: uma sopa de lentilhas leve e de cor e sabor terrosos, chutneys – o ligeiro picante é compensado pela frescura dos coentros – picles e pães de todas as formas. Têm de estar todos presentes nesta mesa. A família Michèlle diz que isto é um almoço normal de dia de semana. Para mim, é um banquete. Mal posso esperar por ter um jantar mais leve. É um cliché dizer que nunca houve melhor altura para visitar um certo destino. Mas no que toca à ilha Maurícia, nunca haverá melhor momento do que agora para fazer uma visita. Este país está a desaparecer gradualmente – um milímetro e pouco a cada ano que passa: esta é uma ilha fortemente atingida pela inevitável maré do aquecimento global; uma das mais ameaçadas, de facto.

A subida do nível do mar está a tornar a areia num bem precioso. Mas, por agora, vamos às praias que devemos preferir, aquelas de areia branca que nenhum pintor consegue replicar, onde as rochas vulcânicas negras contrastam com a paleta de azuis lustrosos da água que, vista de perto, é completamente transparente. E a topografia irregular da linha costeira faz com que cada dentada de comida saiba melhor, cada cocktail pareça mais fresco e cada copo de cerveja se torne ainda mais gelado na nossa mão.

Porém, o exotismo acaba aqui. Enquanto a orla da ilha exibe uma beleza surreal com a sua coleção de cascatas e montanhas, a maior parte do interior foi tomado pelas plantações de cana de açúcar que cobrem quase cada centímetro de terra. Hoje, os proprietários das plantações são uma exceção, devido à diminuição drástica das exportações de açúcar para a União Europeia: os empregos terminaram abruptamente e a indústria foi irreparavelmente abalada.

Os tempos difíceis exigiram uma dose de criatividade e, como resultado, os agricultores começaram a dar outros usos à produção de cana de açúcar. Os vestígios deste, outrora importante, produto de exportação, ainda persistem, uma vez que quatro negócios diversificaram a sua oferta: bebidas alcoólicas, mel, doces e xaropes. A indústria do rum está em crescimento, com uma produção já muito significativa e algumas garrafas a competir com marcas caribenhas mais conhecidas. Se for um fã de rum, vale a pena visitar uma das várias destilarias da ilha. Tanto a Oxenham, em Phoenix, como a La Rhumerie de Chamarel, organizam visitas interessantes (e ligeiramente alcoólicas) que eu até faria duas vezes, se o meu fígado permitisse.

A ilha Maurícia também é conhecida como a ilha da Baunilha. ‘Honestamente, não faço ideia porque é que temos essa alcunha,’ diz-me um agricultor. Talvez seja marketing. ‘Somos o único grupo que a faz crescer da forma certa.’ Isso não travou alguns burlões locais de quererem fazer dinheiro com este produto. Algumas vagens questionáveis estão à venda nos mercados mais turísticos. É melhor evitá-las, a não ser que tenha a certeza de que está a comprar o produto genuíno. Outra planta que se cultiva bem é o chá. Visite a plantação Bois Chéri e fique a conhecer os seus chás excelentes, famosos não só na ilha como internacionalmente. A fábrica é colorida, os campos são lustrosos e férteis e o staff está desejoso de nos ensinar. Se cá vier, pode comer no restaurante temático com vista para o lago – é moderno e o frango com um molho cremoso de chá é verdadeiramente agradável – ou vá até ao Le Saint Aubin Restaurant, uma antiga mansão colonial, a uma curta distância de carro.

A arquitetura das Maurícias é definida não só pelo colonialismo, mas também por uma necessidade imediata de se modernizar. Port Louis, a trepidante capital da ilha, é um sítio movimentado com um bazar fantástico no Mercado Central. Este exibe alguns dos exemplos mais interessantes de arquitetura colonial, que retrata os tempos em que a cidade era um porto principal no comércio do Oceano Índico. Mais uma vez, visite-o nos próximos tempos: é que muitos dos principais edifícios antigos desta zona estão a ser demolidos e substituídos por escritórios e apartamentos.

É em Port Louis que experimentamos o melhor da primeira paixão dos habitantes locais, os gajaks – ou petiscos – que vão desde pequenas porções até refeições substanciais, servidos por vendedores de comida de rua. Muitos deles têm vindo a aperfeiçoar receitas familiares ‘há pelo menos três ou quatro gerações’, diz-nos Shakti, o nosso guia de Port Louis. Os gâteaux piments malaguetas fritas – são o meu gajak favorito da viagem. Desafio-vos a comer um saco cheio delas sem irem, como eu, a correr à procura de uma cerveja. (Esta sede tem uma solução apenas: Phoenix, a melhor cerveja da ilha Maurícia).

Para provar as melhores malaguetas fritas de Port Louis, para não dizer as melhores da ilha, vá até à rua Louis Pasteur e procure umas portadas de madeira vermelhas, amarelas e brancas num edifício colonial. Nenhum destes restaurantes e quiosques tem nome, por isso terá mesmo de saber procurar. É provável que se sinta perpetuamente de barriga cheia durante a sua viagem.

Assim sendo, depois das malaguetas vamos até a um restaurante de dumplings (leia-se: um beco com um par de mesas) meio escondido na Chinatown. Mais uma vez, não tem nome – procure a rua com os murais enormes de arte chinesa e encontre uma refeição memorável: toda a delícia húmida e umami que se espera de uns dumplings a flutuar em caldo, mas com algumas reviravoltas mauricianas. Não há carne de porco, para satisfazer a população muçulmana e hindu, por isso, o frango é o substituto.

Os cozinheiros chineses também dão bom uso aos ingredientes locais: a descrição destes dumplings específicos diz ‘niouk yen contém chuchu’. ‘Isto foi adaptado aos sabores locais,’ diz Shakti. ‘Assim, em torno da ilha, é fácil encontrar alguém de origem indiana a preparar pratos chineses para vender a outros mauricianos de descendência africana. O que outrora era chinês, agora é de todos.’

Há muito para ver e para comer, em Port Louis. Não faltam chamuças, biryani, kebab (frequentemente servido numa baguete) e pão farata (o pão local, achatado, que vem com picles, chutneys e caris) à venda nas roulottes de Trou Fanfaron, perto da principal estação de autocarros.

Mas, para uma experiência mais elegante, terá de olhar para o lado luxuoso da ilha Maurícia. Este é um local onde pode acabar com qualquer preconceito que tenha contra a gastronomia hoteleira. Muitos dos melhores chefs da ilha trabalham com ou para hotéis de luxo porque é lá que lhes dão as oportunidades e o dinheiro de que eles precisam para crescer. O grupo Constance Hotels & Resorts até organiza uma competição de culinária anual bastante conhecida – o Festival Culinário Bernard Loiseau – que coloca chefs Michelin de renome em confronto entre si, com a ajuda de talentos locais em ascensão. É mais um exemplo de harmonia entre a cozinha tradicional e a gastronomia internacional.

Esse lema também define o melhor restaurante da ilha e a melhor refeição da nossa viagem, Amari by Vineet Bhatia – um chef Michelin considerado um dos chefs indianos mais influentes do mundo – que criou o seu restaurante no hotel LUX* Belle Mare. O Amari é gerido pelo braço direito de Bhati há anos, o prodigioso chef Subi Mungroo, que trabalhou na Europa e na ilha Maurícia, que nos preparou o prato de assinatura do restaurante: uma costeleta de borrego rica e melosa, marinada em café e especiarias, com um risoto de cogumelos, molho de cogumelos e um pequeno folhado de queijo de cabra. Também experimentámos o peixe-galo com caril de lima, kaffir e coco, que me fez rever, após cada dentada, tudo o que sabia acerca da cozinha indiana. ‘Nós usamos todos os ingredientes e técnicas tradicionais indianos, mas apresentamo-los de uma forma mais moderna,’ explica Subi. ‘Mas a comida indiana na ilha Maurícia é mais leve.’ Isto é a gastronomia contemporânea da ilha. E será que os habitantes locais estão preparados para esta cozinha? ‘Acho que não,’ diz Subi. ‘Este tipo de cozinha é mais indicado para os hotéis.’

Com a diversidade de culturas existentes na ilha, o ambiente gastronómico nas Maurícias é muito liberal. A fusão não é uma tendência, mas sim um estilo de vida. Um chef conservador aqui não sobrevive. E as suas papilas gustativas têm de se manter abertas a sensações novas, para poder experimentar a verdadeira essência da ilha.

A cozinha de alta-qualidade pode ser a solução para os hotéis, tirando algumas exceções de restaurantes elegantes à beira-mar. Mas isso faz parte da beleza da comida deste país. Há altos e baixos: a alta classe gastronómica nos hotéis de cinco estrelas e as delícias calóricas servidas nas roulottes de rua. Se o paraíso for, de facto, uma cópia das Maurícias, Deus deve gostar tanto de malaguetas e cerveja como do esplendor Michelin à beira da praia.

Vista de Chamarel para a Ile aux Benitiers e Le Morne

Alex Harris e Mark Parren Taylor viajaram até à ilha Maurícia com a cortesia do Tourism Mauritius e da Air Mauritius.

Veja outros artigos