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SISTELO, A ALDEIA RURAL

by Beatriz Fragoso
SISTELO, A ALDEIA RURAL

Os socalcos verdes cavados pelos homens impressionam na paisagem imensa. Nestas montanhas, onde pastam as vacas de raça Cachena, emblemáticas da cozinha da região, o tempo passa sem pressas.

 

Chegar a Sistelo é entrar numa paisagem natural esmagadora. A aldeia, construída junto ao rio Vez, está no centro de um cenário moldado por socalcos, uma enorme escadaria verde cavada pelos homens e que desce dos pontos mais altos até ao vale, criando as condições para a prática da agricultura e da pecuária. Pelas encostas pastam vacas das raças autóctones Cachena e Barrosã, símbolos máximos da gastronomia local. Localizada nos limites do Parque Nacional da Peneda-Gerês, a região de Sistelo, faz parte da reserva da Biosfera Gerês-Xurés e garantiu, no mês passado, a classificação de monumento nacional, enquanto Paisagem Cultural Evolutiva Viva. “É o primeiro caso no país de uma paisagem natural que recebe este título”, conta o orgulhoso presidente da Junta, Sérgio Rodrigues.

Sistelo é uma antiga povoação medieval. Entrando pela rua principal, passamos por um conjunto de espigueiros, por uma antiga fonte, pela Casa do Castelo de Sistelo, edificada a meio do século XVIII pelos viscondes de Sistelo, e pela igreja de São João Baptista, localizada num dos topos da aldeia e cuja data de construção remontará aos finais do século XV. Ali perto, fica o pequeno café da dona Amélia, centro de convívio da aldeia e lugar frequentado por viajantes que passam pelo Sistelo e querem provar petiscos como o presunto, os pastéis de bacalhau ou a salada de orelha de porco. Aos fins-de-semana, quando a freguesia aumenta, há posta com batata a murro, cozido à portuguesa ou pica no chão (frango caseiro de cabidela).

Vamos acompanhados por Hugo Novo, responsável pelo inovador projeto da ‘5ª Lógica’, em conjunto com Laura Moura, uma ideia que tem como objectivo “o pastoreio planeado de cabras como forma de prevenção de incêndios e de gestão da paisagem e da biodiversidade”. As 50 cabras do rebanho são de raças autóctones e têm nomes próprios como Lili, Cevada, Bela ou Azeitona. “As cabras são adoptadas por pessoas no mundo inteiro. Pagam 75€ por ano para a adopção e podem vir aqui e interagir com o rebanho”, explica Hugo Novo.

Sistelo está integrada no concelho de Arcos de Valdevez cuja área total de paisagem está inserida na Reserva Mundial da Biosfera da Unesco e pode ser admirada de perto por quem percorre a Ecovia, uma linha de passadiços com mais de 30 quilómetros. Outra atração é a Porta do Mezio, uma das cinco entradas para o Parque Natural da Peneda Gerês, onde o visitante recebe todas as informações antes de se aventurar no parque, dispondo ainda de equipamentos de diversão e descanso.

A vila de Arcos de Valdevez orgulha-se da sua história ligada à fundação da nacionalidade. Aqui teve lugar o célebre recontro de Valdevez, em 1141, que opôs, num torneio medieval, os cavaleiros de Afonso Henriques e do seu primo, Afonso VII, de Castela. Para poupar homens, essenciais para o combate aos mouros, em vez de uma batalha entres exércitos, os dois primos decidiram fazer um torneio/duelo entre os seus melhores cavaleiros. Venceram os de Afonso Henriques e, pouco anos depois, em 1143, era assinado o Tratado de Zamora e Portugal ganhava a sua independência. O Recontro de Valdevez é agora recriado anualmente, em Julho, no Paço da Giela, um monumento cuja arquitetura foi alterada ao longo de séculos e é hoje visita obrigatória.

Todo o concelho de Arcos de Valdevez é rico em produtos que valorizam a gastronomia regional, como o vinho, os doces, a carne ou os produtos de fumeiro. A região está a apostar na diferenciação da sua casta local: o vinhão (no Douro conhecida por Sousão). O engenheiro Vítor Correia, da Associação de Vinhos de Arcos de Valdevez, explica-nos que existe quase uma dezena de produtores no concelho, dedicados à produção de vinho: “A região beneficia da proteção dos ventos marítimos, o que dá origem a um vinhão mais aromático, com notas de frutos vermelhos”. Um dos produtores mais antigos na produção desta casta é Simão de Aguiã, proprietário da Quinta da Torre de Aguiã, um edifício imponente cuja origem remonta ao século XIII. Das suas vinhas saem duas marcas de referência no mercado dos verdes tintos: o Aguião (4€) e o Torre Aguião (6,5€). “A uva é pisada a pé, num lagar de pedra e o vinho é engarrafado na própria adega da quinta: 60 a 70 mil garrafas por ano”, conta Simão de Aguiã.

O vinhão é um acompanhante regular dos pratos de lampreia, mas também combina bem com outros pratos da região, como a ‘carne de cachena com arroz de feijão tarrestre’. No restaurante ‘O Pote’, em Arcos de Valdevez, Pedro Martins, explica que este feijão é semeado no meio do milho, rasteiro: “É típico dos socalcos do Sistelo”. A carne, grelhada apenas com sal, é saborosa e suculenta. No menu, vamos encontrar outros pratos tentadores como o ‘cabrito da serra do Soajo no forno com arroz de cabrito’, o ‘cozido à minhota’ (com feijocas) ou o já citado ‘pica no chão’.

Quem procura doces, tem a solução na centenária Doçaria Central, aberta ao público desde 1830. Clara Laranjeira e a tia, Clara Galvão, tomam conta da loja e da fábrica artesanal. As especialidades da casa são os ‘charutos dos Arcos’, um doce de ovos revestido de hóstia de missa e fios de ovos e os ‘rebuçados dos Arcos’, além de uma variedade de doces sortidos: doce branco, biscoitos de chá, quadrados de açúcar, casadinhos, SS com coco, quadrados de chocolate, fatias de pão-de-ló com coco e bolo fino.

Quem se dedica também à doçaria regional, há mais de 40 anos, é Rosa Maria Silva. É ela que faz o saboroso ‘bolo de discos’, um doce com várias camadas em forma de disco, feito com amêndoas, açúcar e claras e que sai com as iniciais RM para se distinguir de outros. “Para mim, o importante é satisfação das pessoas e o carinho com que faço as coisas”, diz Rosa Maria, enquanto coordena a saída de mais uma fornada de discos quentes e apetitosos. Os biscoitos de milho dos Arcos e as bolachas com chocolate e frutos secos são outros produtos que saem desta pequena fábrica caseira para vários pontos do país e também para os Estados Unidos, o Canadá e a Suíça.

Dos doces de Rosa Maria, passamos à produção de enchidos da Sabores do Vez, uma pequena unidade artesanal que segue os processos tradicionais de tempero, usando o vinho verde tinto da região; e de fumagem, com recurso à lenha de carvalho. Vasco Lima é o responsável pelo projeto: “Começamos do zero! Primeiro pelo mercado local, depois fomos crescendo”. Hoje a Sabores do Vez já exporta para França, Canadá, Bélgica e Suíça toda a sua linha de produtos fumados como a cabeça de porco e a barriga de porco, o lombo do cachaço e as alheiras de vaca cachena.

Ainda no concelho de Arcos de Valdevez, subindo na direcção do Gerês, chegamos ao Soajo, terra conhecida pelo seu conjunto de espigueiros construídos sobre uma gigantesca pedra de granito. No centro da vila, no Largo do Eiró, foi edificado um curioso pelourinho, algures entre os séculos XVI e XVII. Ali mesmo ao pé, está o atelier Oficina da Moura, onde a artesã Filipa Leite transforma lendas e histórias da região em peças artísticas moldadas em barro que depois vende na sua pequena loja. Há três anos, Filipa trocou Lisboa pelo Soajo e, quem a visitar agora na sua oficina, vai ouvir falar de cavaleiros antigos e de mouras encantadas que escondem tesouros no meio das pedras.

 

 


Informação de viagem

 

Onde comer

Café da Ti Amélia Localizado no centro de Sistelo, serve petiscos durante a semana e, ao fim-de-semana, pratos como a cabidela de galinha, a posta ou o cozido à portuguesa.

O Pote Localizado no centro de Arcos de Valdevez, serve os pratos mais representativos da gastronomia da região, entre os quais a carne de cachena com feijão tarrestre. 258 515 245

Casa de Videira Situado no centro do Soajo, aposta nos pratos regionais como o cabrito, a carne cachena ou o sarrabulho. Ambiente agradável, com uma lareira na sala, importante nos meses frios. 258576205

 

Onde dormir

Casa do Avô e Casa da Avó São duas casas independentes, localizadas quase ao lado do Castelo de Sistelo, inteiramente recuperadas e com cozinhas equipadas. A Casa do Avô alberga quatro pessoas (90€ por noite) e a Casa da Avó recebe duas pessoas (50€ por noite). 258 931 750

Casa Terezina Antiga casa rural recuperada, situada na aldeia de Sistelo. Dispõe de três suítes e de todo o equipamento de cozinha. Capacidade para seis pessoas, 135€ por noite. 258 931 750

Luna Arcos Hotel É um hotel de quatro estrelas, localizado junto ao rio Vez, ideal para quem pretende visitar a região a partir de Arcos de Valdevez. Dispões de 75 quartos e suítes, um restaurante, piscinas e ginásio. 289 009 400

 

Informações

Visite o site cmav.pt

 

 

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